Praias no Espírito Santo

Cidades Resilientes, Cidadãos Inteligentes


Frank kresin, Pieter van Boheemen, Cônsul Arjen Uijterlinde, Fábio Palma

Cidades Resilientes, Cidadãos Inteligentes

  Seminário no Rio de Janeiro que promoveu a discussão do tema


O Rio de Janeiro foi cenário de uma experiência que já vem acontecendo na Holanda e em outros países europeus. Neste semestre, a Holanda está na presidência da União Europeia e o consulado tem presenteado os cariocas e fluminenses com algumas ações que geram a troca de experiências. O seminário SMART CITIZENS, RESILIENT CITIES (“Cidades Resilientes, Cidadãos Inteligentes”) trouxe para a pauta a discussão de assuntos pouco conhecidos dos brasileiros e, principalmente, o poder da palavra resiliente. O encontro entre gestores, diplomatas, curiosos e estudiosos de várias nacionalidades aconteceu no IED – Instituto Europeo di Design, localizado no antigo prédio do Cassino da Urca, na última segunda-feira, 16.


A criação do programa para este evento foi uma parceria do IED (BR) e da Waag Society (NL) e a colaboração do Consulado da Holanda no Rio de Janeiro e da Prefeitura do Rio. 
     O Consulado holandês e o Dutch Culture (NL) foram os financiadores e receberam contribuições adicionais do IED, do Olabi , da FGV-DAPP e da Swissnex.  

O SEMINÁRIO


Cônsul-geral Arjer Uijterlinde
O objetivo de realizar este seminário foi de oferecer demonstrativo, através da troca de experiências e visões de vários países e cidades, da necessidade do diálogo.  O empoderamento do cidadão é fundamental para dar-lhe as ferramentas necessárias e viabilizar a interação com gestores da área social, ambiental e, principalmente, política.  Essa é a base para um processo construtivo de tomada de decisão política de caráter inclusivo, que contribui para o desenvolvimento sustentável. 
Representantes da Holanda, Brasil,  Suíça e Portugal apresentaram a visão de seus países sobre a importância de cidadãos habilitados para a construção de cidades resilientes. 
         Na mensagem de boas vindas, o cônsul-geral da Holanda, Arjen Uijterlinde, destacou a importância da Holanda estar na presidência de União Europeia e usar esse momento para se conectar com o Rio: “este é um tema abrangente e global. A cidade do Rio de Janeiro precisa aprender a lidar com a resiliência e o cidadão é fundamental nesse processo”, destacou o cônsul-geral.
Em seguida, Han Peters, embaixador da Holanda no Brasil destacou o quanto a tecnologia é importante no processo e contou uma história para os presentes: “Há 30 anos comprei o meu primeiro computador com o qual jogava xadrez, me lembro de que esperava 10 minutos para o reinício de uma jogada. Hoje, temos a tecnologia nas palmas das mãos e podemos nos tornar cidadãos inteligentes”, ressalta o embaixador.
Para Claudia Gintersdorfer, Ministra-Conselheira da UE para o Brasil, o tema escolhido é muito importante: “É um tema inspirador que mostra que nem sempre o mais forte vence e o mais fraco perde. Vencem aqueles que se adaptam” e ainda completa “mudar os hábitos é um importante desafio para o futuro”. A União Europeia apoia a energia sustentável e a redução de CO2 na Europa. Compromete-se também com a tecnologia compartilhada e no Brasil já surgem projetos inteligentes como os painéis solares em Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ) e Sorocaba (SP). Em 2017, novas cidades estarão no projeto. E no final, ela alerta, principalmente o Brasil, para variações climáticas e a necessidade de se programar para o que pode acontecer devido aos maus tempos.
Para encerrar a abertura, Pedro Junqueira, do Centro de Operações do Rio de Janeiro, apontou que os movimentos climáticos na cidade carioca são uma preocupação. Destacou que o termo resiliente é novo e que surgiu na prefeitura entre 2013 e 2014. E colocou: “o comportamento das pessoas influencia a resiliência e todos podem ajudar a todos”.


O seminário foi dividido em quatro painéis.

Primeiro Painel – Políticas

Foi apresentado pelo holandês Frank Kresin, Diretor de Pesquisa, Waag Society.
Pedro Junqueira voltou para apresentar o quanto a cidade do Rio de Janeiro está avançada na resiliência. A centralização das soluções facilita na rapidez para se resolver problemas urbanos. Sejam eles acidentes, falta de luz ou tubulação estourada, por exemplo. Lembrou que, no começo, houve uma resistência das empresas em trabalharem juntas para as soluções, mas que, passados cinco anos e meio, os resultados são positivos. “Hoje, conseguimos monitorar a cidade inteira através dos avanços tecnológicos e das experiências com a logística da Copa de 2014”, conta Pedro. A resiliência é pensar no futuro das cidades. É preparar para as alterações climáticas, controlar a violência, organizar o caos do trânsito, o abastecimento de água e, principalmente, o empoderamento dos cidadãos. Estimular as alianças sociais e economia circular para um futuro melhor. 
A próxima a ter a palavra foi Tina Billeter. A suíça é consultora de sustentabilidade e membro do serviço ambiental e de proteção à saúde da cidade de Zurique. A consultora contou que a cidade de Zurique tem 500 mil habitantes, o que se pode comparar a Niterói, e segue um modelo completamente sustentável: “Há um monitoramento do ar, do som e da água quatro vezes ao ano”. Ela apresentou o projeto “Sociedade 2000 Watts”, cuja meta é realizar somente esse consumo de energia, por pessoa, até 2030. Hoje, cada pessoa consome em torno de 5000 watts. Tina acredita que a mudança sustentável é possível. “Devemos respeitar a sazonalidade dos alimentos e consumi-los na época correta”, ressalta. Podemos viver com menos coisas e compartilhar mais, além de  consertar aquilo que se quebra e não jogar no lixo.
               A experiência de Portugal foi compartilhada por Catarina Selada, chefe do departamento de cidades na INTELI Innovation Centre. Em Portugal, a maioria das prefeituras colabora com a resiliência e lidera os movimentos para o futuro. Catarina conta que: “Há cidades que usam seus espaços para testarem a resiliência e compartilham as experiências e resultados”. Os carros elétricos já são uma realidade e já há projetos em conjunto com a cidade de Curitiba, no sul do Brasil.
Frank Kresin retorna para apresentar um pouco da realidade sustentável de Amsterdã. O plano é que, até 2020, a qualidade de vida fique bem melhor. A população começa a perceber a necessidade da reciclagem do lixo doméstico, de diminuir a poluição e das estratégias coletivas.  Compartilhar ideias e soluções se tornou o foco: “Usamos os quatro “I”: Inovação, Inspiração, Interatividade e integração, e tem dado muito certo”, conclui.

Segundo Painel – Cidades Resilientes


Panel 2 – Mark vand der Net, Marco Contardi, Ricardo Ruiz, Clarisse Linke e Luciana Nery
Luciana Nery abriu e moderou o segundo assunto do dia. Ela é Gerente de Resiliência do Centro de Operações do Rio.
O pernambucano Ricardo Ruiz tomou a palavra e apresentou o projeto que coordena, chamado InCiti. O projeto tem como objetivo catalisar conhecimentos e conceber soluções colaborativas para constituir cidades inclusivas, sustentáveis e felizes. Entre os projetos se destacam: Cidades Sensitivas, que discutem com a sociedade a utilização dos espaços públicos como locais de expressão, dinâmicas sociais e experimentação das políticas publicas. O desdobramento deste projeto se chama LabCeus – Laboratório das Cidades Sensitivas usando a tecnologias em espaços públicos. Os outros projetos são o Parque do Capibaribe, a Face Noturna da Cidade e Espaço Contra o Crime. 
A mobilidade sustentável foi o assunto abordado por Clarisse Linke, do Instituto de Transporte e Política de Desenvolvimento Brasil. Ela aponta os desafios da mobilidade, principalmente nas cidades da América Latina e da África. Os grandes deslocamentos nos centros urbanos, de casa até o trabalho: “No Rio de Janeiro, quando chove, boa parte das pessoas falta ao trabalho, pois a logística ruim do transporte e as condições não permitem longos trajetos nesses dias. E a maioria não tem dinheiro para o taxi, destaca”. E, com isso, cai a produtividade e a qualidade de vida.
Mark Van der Net, holandês , apresentou o projeto OSCity. Conectar as pessoas é o fundamental: “As cidades precisam ser menos técnicas e se construir a partir do desejo das pessoas”, conta Mark. O uso da tecnologia e das redes sociais é importante, e o fundamental é a convivência das pessoas.
O italiano Marco Contardi, da FGV Projetos, trouxe para a discussão “como podemos nos transformar?” E apontou pontos importantes: Qual seria o real papel do setor público? Como compor setor público e privado com a sociedade? A necessidade de uma governança. A necessidade do desempenho técnico dos habitantes e do surgimento dos novos mercados e modelos estratégicos. Todos estes pontos são responsáveis pela transformação do pensar e agir da sociedade e instituições pública e privadas.


Terceiro Painel – Cidades Inteligentes


Pieter van Boheemen
O terceiro painel do dia começou com Pieter van Boheemen, holandês, Diretor da Waag Lab, apresentando o tema “Cidadãos Inteligentes”. Pieter apresentou o resultado do workshop realizado com brasileiros na semana anterior. Com a utilização de condutores simples como balões a gás, brinquedos lúdicos e um pouco de ciência e tecnologia é possível medir a qualidade da água, som e ar. Segundo ele, foi uma semana de muita diversão e aprendizado.
                Gabriela Agustini, diretora e fundadora do Olaby Makerspace no Rio de Janeiro, defendeu a necessidade de se levar a tecnologia para todos e da diversidade: “Além da tecnologia, temos que dar valor à marcenaria e ao artesanato. Assim, criamos um espaço de inovação em comunidade”, aponta. O Brasil é um país de desigualdades e precisamos, cada vez mais, dialogar com a sociedade de forma mais simples.  Ela concluiu: “Cidade Inteligentes são aquelas feitas para todos os moradores”.
Chloe Dickson, da Suíça, e co-fundadora do BeMap nos prova: “Pedalar é uma delícia, além de sustentável”. O dispositivo BeMap é uma lâmpada de bicicleta com GPS de rastreamento e sensores que medem a poluição ao longo de sua rota de ciclismo. Os ciclistas podem coletar dados sobre seus arredores, a fim de escolher o seu caminho para trabalhar de acordo com os valores de poluição. Esse dispositivo já vem sendo testado no Rio de Janeiro e São Paulo. 
                O brasileiro Ronaldo Lemos veio apresentar o projeto “It’s Rio”. Ronaldo aposta na democratização da tecnologia e, assim, nas mudanças dos cidadãos. Ele aposta, para o futuro, nos contratos inteligentes: Feitos entre as pessoas, sem envolver órgãos oficiais. E assim vão surgindo cada vez mais movimentos livres e menos burocráticos. Criar oportunidades para os mais pobres dialogarem mais e saberem os seus direitos. A necessidade da abertura das portas das universidades e instituições de ensino para a sociedade, da interatividade entre os cursos oferecidos e da troca de inovações e ideias entre todos os setores da sociedade.
                Pieter van Boheemen concluiu esta etapa: “Ter atitude para uma boa comunicação é fundamental”
                

Quarto painel - Visionários

Fabio Palma, Diretor do IED - Istituto Europeo di Design, abriu o último painel do dia. Lembrando que, com o passar dos tempos, os centros urbanos incharam e as pessoas começaram a se deslocar mais. Hoje, a globalização nos permite essa interatividade: “Se hoje temos pessoas de vários países nesta sala é graças a essa movimentação e interação”, apontou. Por outro lado, precisamos olhar para o futuro e pensar como agir para dias melhores.
Luisa Santiago, Diretora da Ellen MacArthur Foundation no Brasil, aposta na economia circular para o futuro: “O modelo econômico atual destruiu o planeta, gerando poluição e o esgotamento das reservas naturais”. A proposta é criar uma economia restaurativa, regenerativa e durável. Hoje, o consumo aumentou e as pessoas vivem muito mais nas cidades do que no campo. A economia precisa funcionar de forma circular e, assim, trazer mais oportunidades para o futuro.
Os fatores históricos podem ser definitivos para o futuro. Washington Fajardo, presidente do Instituto do Patrimônio Mundial Rio, mostrou o quanto é importante ser resiliente e um cidadão inteligente hoje, mas sem esquecer-se da história: “O melhor da cidade é a cidade que existe”, frase que sempre repete para todos. Ele contou que o Rio de Janeiro, de alguma forma, sempre foi resiliente. Foi aqui que se plantaram as sementes europeias no Jardim Botânico, na época do Império. Sempre se experimentou e se inovou na cidade carioca. Entre 1928 e 1956, um grupo pensante formado por artesãos, arquitetos e urbanistas criou um novo planejamento urbano para o pós-guerra. Aqui, no Brasil, o movimento foi liderado por Lúcio Costa, que planejou a nova capital, Brasília, e a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Washington lembra que: “Manter prédios antigos é contar a história da cidade, para isso é necessário estimular essa preservação”. Um trabalho que faz com a prefeitura é sair pelo Centro do Rio com secretários e, juntos, fazer o mapeamento dos problemas e soluções. A ideia é buscar a manutenção dos locais e estabelecimentos históricos.
                A energia solar é a solução da energia limpa para o futuro? Essa é a questão que Bruno Cecchettim, chefe de inovação da Enel Brasil, apresentou como visão do futuro. A empresa está em 30 países , buscando o sol como principal fonte sustentável. Projetos estão sendo testados: carros elétricos, bicicletas elétricas que foram doados para as prefeituras e, até, barcos elétricos. Todos, logicamente, sendo recarregados pela luz solar.
                Frank Kresin retornou para apresentar mais uma visão da Waag Society. O Hacker sempre foi visto como a pessoa que está no mundo digital para destruir redes e roubar dados: “Hacker pode ser uma pessoa do bem. Foram eles que criaram os computadores com o objetivo da democratização do acesso. Idealizaram o Linux, por exemplo”, desvenda. O hacker pode ser o meio de inteligência coletiva e uma fonte de conhecimento. Qualquer pessoa pode se tornar um, mas, espera-se que seja para o melhor da sociedade.

Conclusão:

Construir uma sociedade resiliente depende do envolvimento de todos os setores e, principalmente, do empoderamento do cidadão para dar-lhe as ferramentas necessárias para participar do debate sobre o futuro de sua cidade. 
Abrir caminho para a inovação e a economia circular é dar uma chance ao planeta, oferecendo soluções conjuntas para a eminente escassez de recursos naturais a partir da democratização do acesso à informação.  Ela pavimenta o caminho para uma sociedade participativa, com cidadãos inteligentes, que moldam sua cidade de acordo com as necessidades comuns.
A inspiração derivada deste seminário deve viabilizar parcerias futuras e a participação em programas bi e multilaterais.  É fundamental manter o diálogo entre o Brasil e os países Europeus, como a Holanda, para possibilitar um intercâmbio ininterrupto de experiências e práticas, evitando erros já conhecidos e aprimorando práticas já estabelecidas.  Há um firme propósito da Holanda e demais países europeus participantes do seminário em dar continuidade a esta trajetória junto com a prefeitura do Rio de Janeiro.  



Fotos: Maarten Zeehandelaar




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